Gilson Sousa
Pouca gente no Brasil sabe, mas o grande orador do cenário político nacional que hoje governa o Estado de Sergipe, Marcelo Déda, é também um poeta de mão cheia. Tímido, literariamente falando. Mas essa condição não tira dele o mérito de estar entre os grandes poetas nascido em Sergipe.
Seu poder de oratória é reconhecido até por adversários mais ferrenhos na política. Mas a poesia não viaja tão longe. O poema de Déda se esconde feito bicho arredio. Apesar da força que tem, garante quem o conhece. E assim a poesia desse homem vai enriquecendo gavetas. Vai percorrendo trilhas abismais entre os vãos da política e o desejo de se firmar num mundo bem melhor, graças ao cultivo do poeta.
A propósito dessas linhas, vale lembrar que no começo desta semana, quando esteve por aqui para inaugurar obras, a presidenta Dilma Rousseff fez questão de externar ao público um pouco do Marcelo Déda poeta. Sem delongas, o encheu de elogios e o apontou no caminho dos literatos. Para que todos ouvissem, a presidenta garantiu que Déda é um grande poeta. Ultrapassa os limites da corriqueira política.
“Ele fala com a alma de forma clara e mostrando sentimento e paixão. Quem fala dessa forma, são pessoas que são vistas na história da humanidade como especiais, e Déda é especial, pois consegue dizer e fazer”, abalizou Dilma Rousseff. Ela própria revelou que adora ler e ouvir coisas produzidas por Déda. Coisas que a fazem crescer como ser humano. E só a poesia de um grande poeta tem esse poder.
Marcelo Déda, saibam, é um leitor voraz de poemas e crônicas da literatura brasileira. Em rodas de conversas, costuma elogiar as produções poéticas de Sergipe. Não deixa escapar nada. Além disso, ele costuma também ler poemas em voz alta para os amigos mais próximos. Gosta ainda de presentear pessoas queridas com livros de poemas. Ou seja, o homem tem a alma impregnada de poesia. Feliz de quem percebe isso.
O poeta Déda, nascido em Simão Dias, rompe fronteiras universais quando quer se abastecer de palavras. É um estudioso da obra atribuída ao poeta grego Homero, principalmente no que diz respeito ao poema épico Ilíada. Em vinte cantos, essa obra do século VIII a.C, descreve a Guerra de Tróia (entre gregos e troianos). E o poeta Déda se apresenta fascinado por isso.
É também um exímio conhecedor da obra do argentino Jorge Luis Borges, cujos textos costumam abordar temáticas como filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), metafísica, mitologia e teologia, em narrativas fantásticas onde figuram os “delírios do racional” (Bioy Casares). Da literatura contemporânea brasileira, o poeta Déda consome sem cerimônias tudo aquilo que escreveu o matogrossense Manoel de Barros, seu predileto.
E para que não fiquemos somente nas considerações sobre o poeta que ora se esconde por trás de uma armadura de político, eis um dos raríssimos poemas de Déda que para nossa sorte foi postado pelo também poeta e conterrâneo Amaral Cavalcante numa rede social:
PALAVRAS NOVAS
De Marcelo Déda
Palavras novas
Têm cheiro de bebê.
Só vêm à luz
Sob cuidados de parto artesanal.
O desenho industrial
Das letras tipográficas
Não podem nos dar a palavra
Assim no estado de menino-novo
Ou de bruguelo de passarinho verde.
(Estão em Estado de Dicionário,
Ainda não menstruam)
Palavras que tais
Carecem da estufa do ouvido
Ou compaixão do olho
Para serem novas.
Mas aí não se diz palavras novas:
Reencarnação é o nome e o mistério
(carne de palavra é vento)!
É preciso descascar as sílabas
Desfolhar fonemas,
Sabe?
Abrindo vargem úmida
Não se acha o grão vermelho dito amendoim?
Rasgando a manga espada obesa
Não se revela uma prenhez amarela de dezembros?
Pois!
Palavras novas não aceitam cesarianas.
São bem-te-vis em ovo estival
Aprontando sem pressa o dia do nascimento.
Mas palavras novas
Podem ser repetições infinitesimais.
Uma nota repetida tantas vezes
Até que vire outra coisa.
(Um solo de Coleman Hawkins
Tem cheiro de palavra nova
Mesmo que se ouça
Muitas vezes).
Dá-se
que o jeito de encher as bochechas
relaxar os lábios
desnortear a língua
rejuvenesce a palavra.
Aí pode ser de virar assobio.
Larga os beiços
E arrisca deixar o vernáculo
Pra ser fraseado de passarinho.
Conforme!
Palavras novas, compadre,
Têm cheiro de bebê
Mas não usam fraldas
- descartáveis!
Aracaju, 04 de novembro, de tarde.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Deda, o poeta
Gilson Sousa
Pouca gente no Brasil sabe, mas o grande orador do cenário político nacional que hoje governa o Estado de Sergipe, Marcelo Déda, é também um poeta de mão cheia. Tímido, literariamente falando. Mas essa condição não tira dele o mérito de estar entre os grandes poetas nascido em Sergipe.
Seu poder de oratória é reconhecido até por adversários mais ferrenhos na política. Mas a poesia não viaja tão longe. O poema de Déda se esconde feito bicho arredio. Apesar da força que tem, garante quem o conhece. E assim a poesia desse homem vai enriquecendo gavetas. Vai percorrendo trilhas abismais entre os vãos da política e o desejo de se firmar num mundo bem melhor, graças ao cultivo do poeta.
A propósito dessas linhas, vale lembrar que no começo desta semana, quando esteve por aqui para inaugurar obras, a presidenta Dilma Rousseff fez questão de externar ao público um pouco do Marcelo Déda poeta. Sem delongas, o encheu de elogios e o apontou no caminho dos literatos. Para que todos ouvissem, a presidenta garantiu que Déda é um grande poeta. Ultrapassa os limites da corriqueira política.
“Ele fala com a alma de forma clara e mostrando sentimento e paixão. Quem fala dessa forma, são pessoas que são vistas na história da humanidade como especiais, e Déda é especial, pois consegue dizer e fazer”, abalizou Dilma Rousseff. Ela própria revelou que adora ler e ouvir coisas produzidas por Déda. Coisas que a fazem crescer como ser humano. E só a poesia de um grande poeta tem esse poder.
Marcelo Déda, saibam, é um leitor voraz de poemas e crônicas da literatura brasileira. Em rodas de conversas, costuma elogiar as produções poéticas de Sergipe. Não deixa escapar nada. Além disso, ele costuma também ler poemas em voz alta para os amigos mais próximos. Gosta ainda de presentear pessoas queridas com livros de poemas. Ou seja, o homem tem a alma impregnada de poesia. Feliz de quem percebe isso.
O poeta Déda, nascido em Simão Dias, rompe fronteiras universais quando quer se abastecer de palavras. É um estudioso da obra atribuída ao poeta grego Homero, principalmente no que diz respeito ao poema épico Ilíada. Em vinte cantos, essa obra do século VIII a.C, descreve a Guerra de Tróia (entre gregos e troianos). E o poeta Déda se apresenta fascinado por isso.
É também um exímio conhecedor da obra do argentino Jorge Luis Borges, cujos textos costumam abordar temáticas como filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), metafísica, mitologia e teologia, em narrativas fantásticas onde figuram os “delírios do racional” (Bioy Casares). Da literatura contemporânea brasileira, o poeta Déda consome sem cerimônias tudo aquilo que escreveu o matogrossense Manoel de Barros, seu predileto.
E para que não fiquemos somente nas considerações sobre o poeta que ora se esconde por trás de uma armadura de político, eis um dos raríssimos poemas de Déda que para nossa sorte foi postado pelo também poeta e conterrâneo Amaral Cavalcante numa rede social:
PALAVRAS NOVAS
De Marcelo Déda
Palavras novas
Têm cheiro de bebê.
Só vêm à luz
Sob cuidados de parto artesanal.
O desenho industrial
Das letras tipográficas
Não podem nos dar a palavra
Assim no estado de menino-novo
Ou de bruguelo de passarinho verde.
(Estão em Estado de Dicionário,
Ainda não menstruam)
Palavras que tais
Carecem da estufa do ouvido
Ou compaixão do olho
Para serem novas.
Mas aí não se diz palavras novas:
Reencarnação é o nome e o mistério
(carne de palavra é vento)!
É preciso descascar as sílabas
Desfolhar fonemas,
Sabe?
Abrindo vargem úmida
Não se acha o grão vermelho dito amendoim?
Rasgando a manga espada obesa
Não se revela uma prenhez amarela de dezembros?
Pois!
Palavras novas não aceitam cesarianas.
São bem-te-vis em ovo estival
Aprontando sem pressa o dia do nascimento.
Mas palavras novas
Podem ser repetições infinitesimais.
Uma nota repetida tantas vezes
Até que vire outra coisa.
(Um solo de Coleman Hawkins
Tem cheiro de palavra nova
Mesmo que se ouça
Muitas vezes).
Dá-se
que o jeito de encher as bochechas
relaxar os lábios
desnortear a língua
rejuvenesce a palavra.
Aí pode ser de virar assobio.
Larga os beiços
E arrisca deixar o vernáculo
Pra ser fraseado de passarinho.
Conforme!
Palavras novas, compadre,
Têm cheiro de bebê
Mas não usam fraldas
- descartáveis!
Aracaju, 04 de novembro, de tarde.
domingo, 23 de setembro de 2012
Mobilidade urbana: um desafio e tanto
A partir de janeiro de 2013 a cidade de Aracaju, assim como outras mais de cinco mil Brasil afora, terá um novo prefeito. E desde já, posso garantir, a mobilidade urbana será o grande desafio para esse administrador aracajuano que virá. Seja ele quem for. É óbvio que saúde, educação, segurança, lazer são temas que precisam estar na pauta do dia de qualquer bom prefeito, mas em Aracaju a dor de cabeça já tem direção certa: mobilidade urbana adequada.
O tabuleiro de xadrez idealizado pelo engenheiro militar Sebastião Pirro no início da história já não sustenta mais tanto travamento. Atualmente são cerca de 250 mil automóveis, entre grandes e pequenos, acomodando uma população de 600 mil pessoas, mais ou menos. Isso sem contar com os veículos emplacados em Socorro, São Cristóvão ou Barra dos Coqueiros que diariamente circulam pelas ruas da capital.
Por esses números, caso houvesse uma fuga em massa da cidade, daria para colocar toda a população da capital confortavelmente nos veículos existentes. Ninguém ficaria a pés. E isso não é nada bom, considerando que não dispomos de espaço físico suficiente para tanta parafernália motorizada. Aracaju, coitada, conta apenas com 174 km², o que é muito pouco para tamanha frota de veículos e insensibilidades.
Outra coisa. Não é novidade para ninguém que o transporte coletivo da cidade é um dos piores deste país. Ônibus novo e confortável somente em comercial de televisão. Quem precisa utilizar o transporte público no dia a dia sabe do que estou falando. A história do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), propagada nas campanhas eleitorais, parece-me história para boi dormir. Portanto, o próximo prefeito terá mesmo que quebrar a cabeça para amenizar tal situação, sob pena de ter que administrar uma cidade de estressados e inconsequentes no trânsito.
Sabe-se que os últimos administradores tentaram promover melhorias na mobilidade. Algumas acertadas, outras nem tanto. A construção do viaduto do DIA, em 2007, foi um grande acerto. Mas precisamos ser mais desbravadores. Evoluir. Expandir o centro comercial, levantar edifícios-garagens, garantir cada vez mais os espaços dos pedestres, dos ciclistas, dos portadores de deficiências. Chega de egoísmos.
A propósito, além de poucas, as principais avenidas aracajuanas são consideravelmente estreitas. E isso, é claro, dificulta o bom fluxo e a mobilidade devida. Vias como a Barão de Maruim, Desembargador Maynard, Contorno, Tancredo Neves, Hermes Fontes, Adélia Franco, Beira Mar, Francisco Porto, Maranhão, Euclides Figueiredo, Rio de Janeiro e algumas outras precisam ser repensadas. Antes que seja tarde demais.
Por último, quero dizer que a sinalização vertical de Aracaju deixa muito a desejar. Os agentes de trânsito, na sua maioria, são notadamente despreparados para a função. Até porque não há investimentos direcionados para tal qualificação, pelo o que se percebe. E a educação do povo? Dos motoristas? Pelo amor de Deus! Isso tudo precisa ser anotado pelo próximo prefeito. Antes, reafirmo, que o caos tome conta dessa cidade outrora tranquila.
Gilson Sousa
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
A Prima na piscina do quintal
Sinceramente, não aguento mais a bagunça que minha prima faz no quintal de casa todo fim de semana quando monta aquela piscina de plástico para se divertir. Não sou obrigado a ficar vendo aquela anarquia toda. Quando veio morar aqui, jurou manter bom comportamento. E foi somente por isso que disse a tio Herinaldo, que já foi pro céu, e tia Malvina, que sequer enxerga mais, que iria acolher a moça. Mas tá ficando abusada.
Domingo mesmo, sequer tinha sol, mas ela tava lá. Os vizinhos até ficam pendurados no muro, não sei pra quê. Só sei que essa minha prima adora tirar meu sossego. E como se não bastasse, fica me obrigando a passar bronzeador nas partes dela. Quem já se viu isso? Nem sol tem. Só capricho... só capricho.
Gilson Sousa
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Minha Chapeuzinho
Ritinha, que no seu décimo sexto aniversário ganhou de presente uma linda capa vermelha confeccionada por sua avó, adorava atravessar a rodovia perto de sua casa e bater papo com os caminhoneiros estacionados no posto de gasolina. Era desinibida. Tinha uma inteligência admirável e até jogava dominó e xadrez como ninguém. Certo dia, sua mãe lhe pediu para levar alguns doces a avó que morava do outro lado da rodovia, próximo a um pequeno bosque. Ritinha adorou a ideia.
Era um dia frio. Mesmo assim a menina não se intimidou. Cesta de doces na mão, capa vermelha no corpo e a cabeça protegida. Já no bosque, enquanto cantarolava em meio às folhas, flores e galhos, encontrou um dos caminhoneiros que cochilava em total despreocupação. Chamava-se, ela lembrava bem, Sr. Paulo Lobo. E mesmo se esforçando para não acordá-lo, o moço despertou do sono e a interpelou:
- Para onde está indo, Ritinha?
- Vou à casa de minha avó levar essa cesta de doces!
- É muito longe daqui?, perguntou o caminhoneiro Lobo.
- Não, não. Fica logo ali atrás daquelas moitas.
- Sei. Então tudo bem. Nos veremos depois, disse.
Ritinha com sua capa vermelha continuou seu caminho, mas sem pressa alguma. Ela adorava contemplar a natureza e até arriscava umas conversas com os bichinhos que encontrava na mata. Coisa de menina.
Algum tempo depois, chegou à casa da avó, abriu o portão, anunciou sua entrada e se deparou na sala com o Sr. Paulo Lobo e sua avó prestes a beber um refrigerante.
- Ué, espantou-se a menina. – Eu não sabia que vocês se conheciam!
- Estamos nos conhecendo agora, respondeu o caminhoneiro.
- E como o senhor chegou aqui tão rápido? O que veio fazer?
- Nada. Só pensei em proteger você durante a volta para casa.
- Pois é, minha neta, esse senhor parece ser uma pessoa muito boa. Trouxe até um refrigerante para nós, disse a avó. – Vou pegar um copo para você também.
- Tá bom, concordou Ritinha.
Em poucos instantes, após beberem uma certa quantidade do refrigerante, as duas adormeceram ainda na sala. O Sr. Paulo Lobo vibrou.
- Esse ‘Boa noite, Cinderela’ nunca falha, gabou-se o homem.
E enquanto as duas mulheres – a avó e a criança – dormiam profundamente na sala, o caminhoneiro pôde desfrutar da cama macia e quentinha da avó para o seu cochilo tradicional. Afinal, o efeito da droga no refrigerante só passaria cinco horas depois.
Gilson Sousa
terça-feira, 17 de julho de 2012
Nossos ídolos estão envelhecendo
Em tempos de modernidade digital, quando a informação e o conhecimento estão a um click da gente, é bom lembrar que nossos ídolos da boa música estão envelhecendo com dignidade. Agora em 2012, o país celebra a longevidade artística de uma turma que completa 70 anos de vida: Jorge Ben Jor (22/3), Gilberto Gil (26/6), Caetano Veloso (7/8), Milton Nascimento (26/10) e Paulinho da Viola (12/11). E graças a Deus, todos eles continuam com a saúde em dia. Tanto a musical quanto as demais.
Assim como Gil, Caetano, Milton, Paulinho e Jorge, Tim Maia, que morreu há 14 anos, após um show em Niterói, também faria 70 anos em 2012. Já o incomparável Ney Matogrosso teve o privilégio de completar seus 70 anos no ano passado. Mas outros nomes de peso chegarão em breve à mesma marca, já que neste 2012 Chico Buarque completará 68 anos, e Gal Costa, 67 (a mesma idade que Elis Regina teria hoje). Ou seja, a nata da MPB está mesmo envelhecendo.
Na casa dos 80 anos já chegaram, além de outros, João Donato e João Gilberto. Desses, o primeiro se encontra em pleno vigor musical, já o segundo continua enrolando os fãs sempre que pode. Até a turnê que comemoraria seus 80 anos de vida foi cancelada após milhares de ingressos vendidos em várias capitais. Coisas de João Gilberto.
Caso estivessem vivos, os lendários Raul Seixas e Gonzaguinha estariam completando 67 anos agora. Morreram em 89 e 91, respectivamente, mas suas músicas continuarão embalando trilhas sonoras diversificadas por muito e muito tempo ainda. Outro que seria um septuagenário a essa altura é Wilson Simonal, que caso estivesse vivo faria 74 anos neste 2012. Ele morreu em junho de 2000.
De tudo isso, renovando as graças por esse pessoal existir, fica uma preocupação com o futuro musical deste país. Principalmente quando se fala em qualidade na produção dos trabalhos. É certo que a renovação da MPB, da década de 1970 para cá, se fez com nomes como Djavan, João Bosco, Guilherme Arantes, Zé Ramalho, Fagner e outros. Mas essa tal ‘renovação’ vem ficando cada vez mais escassa. Por último assistimos o surgimento de nomes como Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Vander Lee e mais alguns poucos.
Dizem por aí que a mídia desconsertada e a fome capitalista das indústrias fonográficas são as grandes responsáveis pela morte lenta da MPB de boa qualidade. E isso é notório. Cada vez mais o ‘povão’ se afasta das coisas boas. Hoje o que mais interessa é o ritmo cheio de ginga, o penteado invocado, a bunda perfeita, a batida sincopada, o rostinho meigo e o pleno êxito da lavagem cerebral. Nada de letras inteligentes, instigantes, desafiadoras.
O que prevê é que a geração Wi-fi, que vive conectada às redes sociais, precisa de algo mais consistente para atravessar sua trajetória. Os “Michel Teló e Cia” da vida não garantem subsistência nem tampouco avanço cultural. Mas é claro que devemos respeitar o gosto de cada um. Só não devemos concordar. Ou alguém aí pensa que essa gente vai chegar aos 70 com essa ‘pegada’ toda? Nem com Viagra.
Gilson Sousa
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Não existe jornalismo investigativo em Sergipe
Sou partidário de que devemos sempre aplaudir o trabalho investigativo da grande imprensa no Brasil. Em geral, quando essa investigação trata de corrupção ou mazela do serviço público, acaba trazendo resultados positivos à sociedade. Isso, é claro, quando as autoridades se interessam pelas providências.
É bacana acompanhar o trabalho dos grandes jornais e revistas do Sudeste, assim como as investidas das grandes emissoras de televisão quando não medem esforços para desnudar fatos que envergonham o país. Pena que isso não é regra entre os veículos de comunicação. A grande maioria, mesmo consciente do seu grande poder, prefere se omitir ou se limitar ao factual.
Esse é o caso local. Há tempos não se tem registro de reportagens investigativas de grande impacto na nossa imprensa. Até parece que na política, na economia, ciência, indústria, tecnologia, educação, em nenhum desses setores existe algo de muito bom ou muito ruim para ser contado. Preferimos nos deter ao factual. E onde está a culpa ou o culpado?
O fato é que não há interesse e muito menos investimento nesse tipo de atividade jornalística por aqui. Os ‘patrões’ não ligam para isso. Os ‘leitores’ e ‘telespectadores’ não ligam para isso. Boa parte dos jornalistas não liga para isso. As autoridades, vixe Maria, é que não ligam mesmo para isso.
Os jornais impressos, telejornais, emissoras de rádios e veículos da internet, em geral, publicam simplesmente releases ou notícias factuais. Em muitos casos, alguns deles mais parecem um mero ‘boletim de ocorrência policial’, tamanho é o destaque dado aos assassinatos, assaltos e outras atrocidades da cena social. Conclusão: não existe jornalismo investigativo em Sergipe.
Nas boas rodas de conversa, há quem sustente que mesmo o ‘factual’, se trabalhado com extrema inteligência, pode virar uma notícia interessante. Mas, com todo respeito, cadê essa ‘extrema inteligência’? Aonde ela se escondeu? O que se crê é que temos por aqui profissionais da comunicação qualificados. Temos equipamentos. Temos histórias. Nos faltam envergadura moral, investimento e boa vontade.
Como todos sabem, para se construir uma reportagem investigativa não bastam um, dois ou três dias de trabalho. Não bastam um repórter, um cinegrafista/fotógrafo e um auxiliar. É preciso muito mais que isso. E é aí que entra a falta de interesse de muitos que comandam as redações locais. Uma pena.
A propósito, falando em jornalismo investigativo, uma ideia bem sucedida da Rede Globo é o quadro ‘Câmera do JH’, exibido quase que diariamente no Jornal Hoje. Em geral, a produção do telejornal investiga alguma irregularidade cotidiana no meio social e com uma câmera escondida captura as imagens, constitui a prova e exibe aos telespectadores. Foi assim com a ação criminosa de manobristas e flanelinhas Brasil afora, e também com o comércio de diplomas falsificados.
Mas esse quadro é apenas um aperitivo. As investigações jornalísticas mais profundas costumam fazer estragos de maiores proporções. Recentemente, aliás, a própria Rede Globo descobrir um esquema corrupto nas licitações da Saúde pública no Rio de Janeiro e o fato pode mudar a postura desse processo daqui pra frente. Ponto para a sociedade. Lamento apenas a transformação do caso num circo que ocupa quase 100% do tempo de seus telejornais, inclusive o Nacional. Mas esta é outra discussão.
Gilson Sousa
sábado, 3 de março de 2012
FIFA quer chutar o traseiro do Brasil

Ouvir a verdade na ‘lata’ sempre incomoda. Chega a doer. Causa um certo incômodo. Atritos. Todavia, quando essa ‘verdade’ é verdadeira, o sujeito que a ouve, na maioria das vezes, trata logo de desqualificar quem a emitiu. É quase sempre assim. E foi assim com o episódio envolvendo o secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, e o governo brasileiro. “O país precisa de um pontapé no traseiro para acelerar as obras necessárias para a Copa do Mundo de 2014”, teria dito o cidadão.
E isso é mentira? É não. As obras dos estádios estão atrasadas, as reformas de aeroportos emperradas, o sistema de transporte público não anda, a rede hoteleira é de quinta categoria, enfim. Falta muita coisa para o Brasil se proclamar preparado para a Copa. E isso preocupa. Afinal, são obras grandiosas. Não são executados do dia para a noite. Por isso o alerta.
Mas o pior é que o governo brasileiro não engoliu a crítica. É claro que foi deselegante e até antidiplomática, a atitude do secretário da FIFA. Como retaliação, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, anunciou que o governo de Dilma Rousseff não "aceita mais o dirigente como interlocutor". Só porque ele falou a verdade. A verdade que dói.
Resta saber se o Brasil vai tomar vergonha e ‘acelerar’ as obras, ou vai esperar o tempo passar e na hora H arranjar aquele famoso ‘jeitinho’ para as coisas. A Copa do Mundo está aí batendo à porta, pois começa praticamente no próximo ano, com a Copa das Confederações. É esperar para ver.
Gilson Sousa
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